
Temperança
Tudo me é permitido, mas eu não me deixarei dominar por coisa alguma. — 1Cor 6, 12
A temperança é a virtude que o mundo moderno quase esqueceu. A prudência ainda se respeita, ao menos de nome. A justiça é bandeira de todos. A fortaleza se admira nos heróis. Mas a temperança soa a algo ultrapassado, a moralismo, a recusa do prazer.
Josef Pieper nota que o próprio nome perdeu o sentido original. Em muitas línguas, "temperança" evoca abstinência total — o "teetotalismo" dos movimentos antialcoólicos. Mas na tradição clássica e cristã, temperança não é proibição. É ordenamento. É a virtude que põe medida nos apetites para que sirvam ao bem da pessoa, em vez de a escravizarem.
São Paulo resume: "Todo atleta pratica a temperança em tudo" (1Cor 9, 25). O atleta não rejeita o alimento; come o que precisa, na hora certa, na medida certa. Não é inimigo do corpo; é senhor dele. A temperança faz o mesmo com toda a vida dos sentidos.
Pieper situa: "A prudência olha para toda a realidade existente; a justiça, para o próximo; a fortaleza renuncia aos próprios bens e à vida; a temperança visa o próprio homem." Das quatro cardeais, a temperança é a mais íntima. Não lida com o mundo exterior, mas com o que se passa dentro de nós.
O que não é
A temperança não é rejeição do prazer. Isso é um vício, não uma virtude. Santo Tomás chama esse vício de insensibilitas — insensibilidade — e classifica-o como defeito moral. Recusar o prazer legítimo que Deus colocou na natureza é desordem, tanto quanto abusar dele. O homem que se recusa a comer por desprezo ao corpo, ou que considera todo prazer como pecado, não é temperante. É doente, ou herege, ou ambos.
O Padre Faus, em Autodomínio, ilustra isso com a quarta mesa do seu "Restaurante Virtual": um jovem magérrimo e soturno, vestido de preto, que se recusa a comer porque seguiu um guru que prega que "a matéria é má" e que "só a filosofia nos sustentará." Faus comenta: a rejeição total do prazer sensível é tão irracional quanto o abuso dele. É a mesma desordem, só que pelo lado oposto.
A temperança também não é mediocridade. "O justo meio entre o excesso e o defeito é um cume, um ponto álgido: o melhor que a prudência indica", esclarece São Josemaría (Amigos de Deus). O temperante não é o que faz tudo pela metade. É o que faz cada coisa na medida certa.
A temperança não é rigidez ascética. São Francisco de Sales, na Introdução à Vida Devota, ensina que a virtude para leigos no mundo não é a do monge no deserto. O leigo come, bebe, festeja, trabalha. A temperança não o retira da vida; ensina-o a viver nela sem ser engolido por ela. "A devoção verdadeira não estraga nada quando é verdadeira; pelo contrário, aperfeiçoa tudo."
O que é
O Catecismo define: "A temperança é a virtude moral que modera a atração dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados. Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade" (n. 1809).
Santo Tomás define: Temperantia est quae in rebus secundum naturam appetitis modum ponit — a temperança é a que põe medida nas coisas apetecidas conforme a natureza. E precisa: o objeto próprio da temperança são os prazeres do tato, especialmente os ligados à conservação do indivíduo (comida e bebida) e da espécie (sexualidade).
São Josemaría condensa numa frase:
"Temperança é domínio. Nem tudo o que experimentamos no corpo e na alma deve deixar-se à rédea solta. Nem tudo o que se pode fazer se deve fazer." — São Josemaría Escrivá, Amigos de Deus
C.S. Lewis, em Mere Christianity, esclarece com a simplicidade de quem fala para não-cristãos: a temperança não é abstinência. É o uso correto de cada coisa. O cristão temperante pode apreciar todas as coisas boas da vida porque nenhuma o domina. O bêbado não é livre: é prisioneiro do álcool. O glutão não é livre: é escravo da gula. O casto não é o que teme o prazer; é o que não se deixa governar por ele.
Chesterton ia mais longe: "O homem que nunca bebe pode ser tão escravo quanto o bêbado — escravo do medo." A temperança não é fuga; é governo.
O princípio que governa tudo
O Padre Faus articula o princípio central: o vício não está no prazer. O prazer é bom, foi posto por Deus na natureza para nos conduzir ao que precisamos. A fome conduz ao alimento. A sede conduz à água. A atração sexual conduz à união conjugal. O vício está na inversão: quando o prazer, de meio, vira fim.
Faus abre Autodomínio com cinco mesas num restaurante imaginário. A primeira: uma família de glutões que "não come para viver, mas vive para comer." A inversão é essa. "O alimento é um meio para o sustento, a sobrevivência e uma condição saudável de vida. Se o meio se transforma num fim, temos uma desordem de comportamento: portanto, uma desordem moral, uma inversão de valores."
A quinta mesa é o contraste: uma família que festeja a entrada do filho na faculdade. Comem bem, riem, bebem cerveja. Mas "cada bocado é como uma ação de graças e um sorriso. E cada prato, cada garfo, cada garrafa, parecem trazer escrito em letras de ouro: 'Parabéns, futuro doutor!'" O prazer ali não é fim; é expressão de alegria legítima. É a temperança em ato.
As partes da temperança
Santo Tomás organiza sob a temperança um leque de virtudes que cobrem praticamente toda a vida interior:
Abstinência e sobriedade. Moderação na comida e na bebida. São Bento, na sua Regra, prevê uma quantidade específica de vinho por refeição e horários fixos para comer. Não proíbe: ordena. O monge come com gratidão e medida. A gula aparece quando o prazer de comer se separa da finalidade de nutrir e se torna o objetivo da refeição.
Santo Tomás, seguindo São Gregório Magno, enumera cinco formas de gula: comer antes da hora (praepropere), comer demais (nimis), comer com demasiada sofisticação (laute), comer com avidez excessiva (ardenter), e comer iguarias caras demais (studiose). A segunda mesa do Padre Faus — o menino mimado que só aceita doces e o avô que cede — ilustra várias dessas formas. A terceira mesa — o casal esnobe que só fala de gastronomia caríssima — encarna o studiose e o laute.
Castidade e pudor. O ordenamento do apetite sexual ao bem da pessoa e do casamento. São João Paulo II, na Teologia do Corpo, revolucionou a compreensão desta virtude ao mostrar que a castidade não é repressão, mas integração: a capacidade de ver o outro como pessoa, não como objeto de prazer. A castidade redime o olhar. O pudor protege a intimidade.
Santo Agostinho conheceu esta luta por dentro. Nas Confissões, narra a oração mais honesta já registrada sobre a temperança: "Senhor, dai-me a castidade e a continência — mas não agora." Sabia o que era certo. Queria-o. Mas adiava. Até que, no jardim de Milão, ouviu a voz de criança — "Tolle, lege" — e abriu as cartas de Paulo no versículo decisivo: "Revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não cuideis da carne para satisfazer-lhe as concupiscências" (Rm 13, 14). Foi o momento em que a temperança, pela graça, venceu.
Modéstia. A moderação nos gestos exteriores, na apresentação, no modo de vestir e de se comportar. Não é repressão da personalidade; é governo da imagem que projetamos. A modéstia protege dos dois extremos: a ostentação e o desleixo.
Humildade. Santo Tomás inclui a humildade sob a temperança, o que surpreende. A razão: a humildade modera o apetite de excelência, o desejo de ser reconhecido e admirado. É temperança aplicada ao orgulho. Santo Agostinho: "O orgulho é a fonte de todas as fraquezas, porque é a fonte de todos os vícios."
Estudiosidade (studiositas). A moderação na curiosidade intelectual. Existe um vício chamado curiositas — a curiosidade desregrada, que busca conhecimento por vaidade, por fuga, ou por puro entretenimento sem fim. O contrário da estudiosidade não é a ignorância; é a curiosidade errante. O Padre Faus, sem usar o termo tomista, descreve o mesmo fenômeno quando fala de "saltitar pela internet bicando aqui e acolá como um tico-tico por mera curiosidade superficial." A estudiosidade é a disciplina de aprender o que precisa ser aprendido, com atenção e propósito. Num mundo de informação infinita e atenção fragmentada, talvez nenhuma parte da temperança seja tão urgente quanto esta.
Mansidão e clemência. A moderação da ira e do desejo de vingança. O manso não é o fraco; é o forte que governa a ira em vez de ser governado por ela. Cristo disse: "Bem-aventurados os mansos" (Mt 5, 5).
O dom do Espírito Santo: Temor de Deus
O dom que aperfeiçoa a temperança é o Temor de Deus — não o medo servil de quem teme o castigo, mas a reverência filial de quem teme ofender Alguém que ama. É o temor que modera os apetites não por medo das consequências, mas por amor. Quando alguém ama profundamente outra pessoa, evita o que a magoa — não por cálculo, mas por afeição. O Temor de Deus opera assim: ordena os desejos por amor ao Pai.
O hedonismo como vício cultural
O Padre Faus conecta a gula a um fenômeno mais amplo: o hedonismo — "a divinização do prazer como finalidade da vida." O prazer, de meio, virou fim. E essa inversão não é individual; tornou-se cultural. Faus é direto:
"Essa mentalidade explica a invasão crescente das drogas e do álcool entre a juventude; as perigosas aventuras sexuais sem significado; e, em consequência, a deterioração do ideal do amor esponsal, alicerce da grandeza da família, que fica substituído por efêmeras aventuras egoístas." — Padre Faus, Autodomínio
O Provérbio bíblico capta a imagem com precisão: "Cidade sem muralhas é o homem sem domínio de si" (Pr 25, 28). A cidade aberta ao invasor: é isso que é a pessoa sem temperança. Não tem defesa. Qualquer desejo entra e saqueia.
Vícios opostos
Por excesso:
- A gula — em todas as suas formas
- A luxúria — o uso desordenado do prazer sexual
- A curiosidade desregrada — o consumo compulsivo de informação, imagens, estímulos
- A vaidade — o apetite desmedido de ser admirado
Por falta:
- A insensibilidade — a rejeição do prazer legítimo; o Padre Faus ilustra com o jovem que se recusa a comer por ideologia, seguindo um guru que ensina que "a matéria é má"; Pieper nota que esta é uma forma sutil de orgulho: quem recusa o prazer legítimo muitas vezes se considera superior aos que o aceitam
A educação dos desejos
A temperança não é violência contra a natureza. É educação dos desejos. O Padre Faus conta a história de um menino — hoje bispo — que só queria comer doces. O pai aplicou um método simples: se o garoto recusava o prato, guardava-o na geladeira e não oferecia mais nada até a próxima refeição, quando servia o mesmo prato. Acabaram os caprichos. Não houve trauma. Houve disciplina acompanhada de carinho.
Faus comenta: "Não há educação sem disciplina, e uma boa disciplina jamais traumatiza, se vai acompanhada pelo carinho." Gustave Thibon, o filósofo francês, dizia o mesmo de outro modo: as crianças que nunca ouvem "não" crescem escravas dos seus impulsos. A permissividade total não produz liberdade; produz tirania — a tirania do capricho.
São Bento entendeu isso há quinze séculos. A Regra beneditina não esmaga o monge; liberta-o. Horários de oração, trabalho, refeição, sono. Quantidade de vinho por refeição. Períodos de silêncio. Tudo medido, tudo ordenado. Ora et labora não é slogan; é uma disciplina que organiza o dia inteiro para que cada desejo encontre o seu lugar e nenhum deles governe a vida.

Afresco do Sacro Speco, Subiaco (séc. XIII) · Domínio público
São Bento de Núrsia (c. 480 – c. 547)
Nasceu em Núrsia, na Úmbria. Jovem, foi estudar em Roma e escandalizou-se com a decadência moral da cidade. Abandonou tudo e retirou-se para uma gruta em Subiaco, onde viveu como eremita durante três anos. Não fugia do mundo por desprezo; fugia para aprender a governar-se antes de governar outros.
Depois fundou doze pequenos mosteiros. Mais tarde, fundou Monte Cassino — o mosteiro que se tornaria berço da civilização beneditina e, em certa medida, da própria Europa cristã. A Regra que escreveu para os seus monges atravessou séculos e continua viva.
O que torna Bento patrono da temperança não é a austeridade extrema. Pelo contrário: a Regra é notável pela moderação. Prevê horas de sono suficientes. Permite vinho com as refeições. Admite adaptações ao clima e às circunstâncias locais. O abade deve "temperar todas as coisas de modo que os fortes desejem fazer mais e os fracos não recuem" (Regra, cap. 64).
A genialidade de Bento está na estrutura. O dia beneditino é um tecido onde oração, trabalho manual, leitura e descanso se alternam ritmicamente. Nenhum desejo é reprimido; todos são ordenados. A fome encontra a refeição na hora certa. O cansaço encontra o repouso. A inquietação encontra a oração. A curiosidade encontra a lectio divina. Nada sobra. Nada falta.
Quando os bárbaros destruíram o Império Romano, foram os mosteiros beneditinos que preservaram os livros, cultivaram a terra, educaram os povos e reconstruíram a civilização. A temperança de Bento não era para monges apenas. Era um princípio civilizacional: a ordem interior produz ordem exterior.
Santo Agostinho e a luta interior
Nenhum santo escreveu com tanta honestidade sobre a luta contra os apetites quanto Agostinho. As Confissões são um documento cru da guerra interior. Agostinho sabia o que era certo e não conseguia fazê-lo. Amava o prazer mais do que amava o bem. E tinha a lucidez de saber que isso o destruía.
A oração "Dai-me a castidade, mas não agora" não é piada. É confissão de quem vive dividido. A vontade quer Deus e quer o prazer. Não consegue escolher. Santo Agostinho descreve isso com uma imagem que trespassou os séculos: "Eu suspirava, atado não por cadeias de ferro, mas pela minha própria vontade de ferro."
A conversão no jardim de Milão foi o momento em que a graça rompeu as cadeias. Mas Agostinho sabia que a luta não acabou ali. No Livro X das Confissões, já bispo, já santo aos olhos dos outros, ele examina os seus apetites com uma honestidade que corta: a gula que ainda o tenta, a curiosidade que ainda o distrai, a vaidade que ainda o seduz. A temperança não é uma conquista definitiva. É uma luta diária que só termina com a morte.
Fulton Sheen e a sede de Cristo
Sheen correlaciona a temperança com a quinta palavra de Cristo na cruz: "Tenho sede" (Jo 19, 28). A sede de Cristo é a sede de Deus pela alma humana. A temperança ordena as nossas sedes — de prazer, de conforto, de reconhecimento, de distração — para que encontrem o que realmente sacia. Santo Agostinho tinha resumido tudo na frase de abertura das Confissões: "Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti."
Toda desordem da temperança é, no fundo, uma sede mal direcionada. Quem come demais está buscando uma saciedade que a comida não dá. Quem consome conteúdo sem parar está fugindo de um vazio que a informação não preenche. Quem busca prazer sexual desordenado está procurando uma comunhão que só existe no amor verdadeiro. A temperança não mata a sede; redireciona-a para a fonte certa.
Como crescer na temperança
Identificar as inversões. Perguntar-se: onde é que o prazer, que deveria ser meio, virou fim na minha vida? Comida, tela, bebida, conforto, reconhecimento. A inversão é sempre o mesmo mecanismo: o meio que vira fim.
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Praticar pequenas mortificações. São Josemaría insistia nisso: não grandes penitências, mas pequenos atos de domínio. Não repetir o prato quando se tem vontade. Desligar o celular numa hora fixa. Comer algo que não agrada sem reclamar. Santa Teresinha chamava isso de "pequena via": a santidade no ordinário.
Impor estrutura ao dia. São Bento sabia: sem horários, os apetites governam. Com estrutura, cada coisa encontra o seu lugar. Hora de rezar, de trabalhar, de comer, de descansar, de ler. A Regra não é prisão; é liberdade organizada.
Distinguir liberdade de libertinagem. São Josemaría: "A temperança nos ensina a diferença entre liberdade e libertinagem." Liberdade é poder fazer o que devo. Libertinagem é fazer o que me dá vontade e chamar isso de liberdade.
Reconhecer a sede verdadeira. Por trás de toda intemperança há uma sede legítima mal direcionada. Identificá-la é o primeiro passo para redirecioná-la. "Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Ti."
Não confundir temperança com rigidez. São Francisco de Sales: a temperança do leigo não é a do monge. Festas, celebrações, prazeres legítimos fazem parte da vida cristã. A quinta mesa do Padre Faus — a família que festeja com alegria — é temperança em ato.
Busquei hoje algum prazer como fuga — comida, tela, distração, compras — para não enfrentar algo que me pesa?
Fui sóbrio no uso do tempo? Quantas horas perdi em consumo passivo de conteúdo sem propósito? A curiositas governa os meus olhos e os meus dedos?
Tenho algum hábito que me domina em vez de eu dominá-lo? Consigo dizer "não" a mim mesmo quando sei que preciso?
Trato o meu corpo — alimentação, sono, exercício — com a disciplina de quem sabe que ele é templo do Espírito Santo, ou com o desleixo de quem só quer conforto?
Confundo liberdade com fazer o que me dá vontade? Ou entendo que a verdadeira liberdade é poder fazer o que devo?
Pratico alguma mortificação livremente escolhida — algum pequeno ato de domínio sobre mim mesmo — ou vivo à mercê dos impulsos?
Quando alguém me contraria, governo a ira ou sou governado por ela?
Senhor, ensinai-me a diferença entre liberdade e escravidão disfarçada. Que eu não seja governado pelos meus apetites, mas que os meus apetites sirvam ao bem que Vós quereis para mim.
Como Agostinho no jardim de Milão, rompei as cadeias da minha vontade dividida. Como Bento em Monte Cassino, dai-me a graça de ordenar os meus dias. Como o atleta de que fala São Paulo, que eu pratique a temperança em tudo, para não ser desqualificado depois de ter pregado aos outros.
Fizestes-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós. Ordenai as minhas sedes para que encontrem a fonte que sacia.
Por Cristo Nosso Senhor. Amém.