
Fé
A fé é o fundamento da esperança, a prova das realidades que não se veem. — Hb 11, 1
Entramos agora nas virtudes teologais. A mudança é radical. As virtudes cardeais — prudência, justiça, fortaleza, temperança — são humanas: podem ser adquiridas pelo esforço, aperfeiçoadas pela prática, reconhecidas até por pagãos. Aristóteles escreveu sobre elas sem conhecer Cristo. As virtudes teologais são outra coisa. Têm Deus como origem, como objeto e como fim. Não se adquirem; recebem-se. São dons gratuitos, infundidos na alma pelo Espírito Santo no Batismo. O Catecismo diz: "Dispõem os cristãos a viver em relação com a Santíssima Trindade" (n. 1812).
E há outra diferença que São Josemaría sublinha: "Em relação às virtudes teologais não se admitem equilíbrios: não se pode crer, esperar ou amar de mais" (Amigos de Deus). As virtudes cardeais buscam o justo meio. As teologais não têm teto. Não existe excesso de fé, excesso de esperança, excesso de caridade.
A fé é a primeira das teologais na ordem da natureza: antes de esperar em Deus é preciso crer nele; antes de amá-lo é preciso conhecê-lo. Santo Tomás: a fé é o começo da vida eterna em nós. Não o fim, não a plenitude — o começo. A semente de algo que só se completará na visão face a face.
O que não é
A fé não é sentimento. Há dias em que se "sente" a presença de Deus — na liturgia, na oração, na natureza, num momento de graça — e há dias em que não se sente nada. Aridez. Silêncio. Escuridão. A virtude da fé opera nas duas situações. Se dependesse de sentir, não seria virtude; seria emoção. C.S. Lewis, em Mere Christianity, define com uma clareza protestante que os católicos fariam bem em ouvir: "A fé é a arte de manter firme o que a razão aceitou, apesar das mudanças de humor." Os humores vêm e vão. A fé permanece.
A fé não é credulidade. Não é acreditar em qualquer coisa sem fundamento. O ato de fé é um ato da inteligência: o intelecto assente a uma verdade que não vê, movido pela vontade, sob a graça. Não é irracional; é supra-racional. São João Paulo II abriu a encíclica Fides et Ratio com uma imagem que ficou: "A fé e a razão são como duas asas com as quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade." Quem amputa uma asa não voa.
A fé não é mera adesão intelectual a um catálogo de verdades. São Tiago é cortante: "Também os demônios creem — e tremem" (Tg 2, 19). Os demônios sabem que Deus existe. Sabem que Cristo é o Filho de Deus. Têm informação completa. Não têm fé, porque a fé não é só saber; é entregar-se. É confiar a vida inteira a Alguém que não se vê, baseado no que Ele disse de Si mesmo.
A fé também não é uma opinião entre outras. Não é "eu acho que Deus existe" do mesmo modo como "eu acho que vai chover amanhã." A opinião admite o contrário. A fé não. Quem crê, crê com certeza — não com a certeza da evidência sensível, mas com a certeza que vem da autoridade de Deus que revela. Santo Tomás: a fé é mais certa do que qualquer conhecimento humano, porque se apoia em Deus, que não pode enganar-se nem enganar.
O que é
O Catecismo define: "A fé é a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo o que Ele nos disse e revelou, e que a Santa Igreja nos propõe para crer, porque Ele é a própria Verdade" (n. 1814).
Santo Tomás define: Fides est habitus mentis, quo inchoatur vita aeterna in nobis, faciens intellectum assentire non apparentibus — a fé é o hábito da mente pelo qual se inicia em nós a vida eterna, fazendo o intelecto assentir ao que não aparece.
A expressão mais densa é inchoatur vita aeterna — inicia-se a vida eterna. A fé não é apenas uma convicção sobre o passado (Cristo ressuscitou) ou sobre o presente (Deus existe). É o germe de uma vida que já começou e que se consumará na visão beatífica. O cristão que crê já está participando, de modo imperfeito e obscuro, da mesma realidade que verá face a face na eternidade.
Josef Pieper acrescenta algo que distingue a fé cristã de toda outra forma de crença: a fé é resposta a alguém, não adesão a algo. "Crer é sempre crer em alguém." Não se crê num sistema, numa doutrina, num conjunto de proposições. Crê-se numa Pessoa que falou e se revelou. A doutrina é o conteúdo da revelação; mas o motivo da fé é a Pessoa que revela. "Eu creio em Ti, Senhor" — não "eu creio nisto."
A fé como ato duplo
A tradição distingue dois aspectos do ato de fé que o latim capta com duas preposições:
Credere Deum — crer que Deus existe e que o que Ele revela é verdade. É o aspecto intelectual: assentimento a verdades reveladas.
Credere in Deum — crer em Deus, mover-se para Deus, entregar-se a Deus. É o aspecto volitivo e afetivo: confiança, abandono, entrega. Santo Agostinho insistia nesta distinção. O demônio faz o primeiro. Só o fiel faz o segundo.
Chesterton captou isso com o humor que lhe era próprio: "A fé não é acreditar no que não se vê; é acreditar no que se sabe que é verdade e manter essa crença contra tudo." A fé não é um salto no escuro. É um salto na luz — mas numa luz que os olhos carnais não alcançam.
O itinerário da fé
A fé não cai do céu como um raio (embora às vezes pareça). Em muitos casos, tem um itinerário — uma história de busca, de resistência, de encontro. O paradigma é Santo Agostinho.
Agostinho viveu trinta e três anos sem fé, ou com fé dispersa. Acreditou nos maniqueus (o mundo dividido entre luz e trevas). Acreditou nos astrólogos (o destino escrito nas estrelas). Acreditou nos neoplatônicos (o Uno inacessível). Em nenhum caso encontrou repouso. A inteligência não lhe faltava — era o que mais tinha. Mas a inteligência sozinha o levava até a porta sem abri-la.
Nas Confissões, regista o momento em que a graça prevaleceu: no jardim de Milão, ouviu uma voz de criança que dizia Tolle, lege — toma, lê. Abriu as cartas de São Paulo e encontrou a frase que lhe trespassou o coração (Rm 13, 13-14):
"Não precisei ler mais. Ao fim desta frase, como se uma luz de serenidade se infundisse no meu coração, todas as trevas da dúvida se dissiparam." — Santo Agostinho, Confissões, VIII, 12
E depois, a frase que atravessou os séculos: Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova, sero te amavi — "Tarde Vos amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei!"
A inteligência levou-o ao limiar. A graça fê-lo entrar. A fé não humilhou a razão de Agostinho; completou-a por cima, onde a razão não alcançava. O próprio Agostinho formulou o princípio: Crede ut intelligas, intellige ut credas — crê para que entendas, entende para que creias. A fé e a razão não se substituem; alimentam-se mutuamente.
Fé e razão
São João Paulo II, em Fides et Ratio, desenvolve essa relação com profundidade magisterial. A razão sem a fé tende a fechar-se em si mesma, a absolutizar-se, a achar que nada existe além do que ela pode medir. A fé sem a razão tende ao fideísmo, à superstição, ao sentimentalismo religioso. As duas asas precisam uma da outra.
Newman, antes de se converter ao catolicismo, escreveu em 1833 um verso que Bento XVI citou com admiração: "Lead, kindly Light" — "Eu antes gostava de escolher e compreender o meu caminho. Agora, pelo contrário, eu oro: Senhor, guia-me Tu." Bento XVI comentou:
"O específico do ser humano não consiste em interrogar-se sobre o 'poder', mas sobre o 'dever' como abertura da alma à voz da verdade." — Bento XVI, homilia sobre Newman Newman não abandonou a inteligência; rendeu-a à luz que a excede.
Romano Guardini, em O Senhor, situa a fé cristã no seu centro: Cristo. Sem a pessoa de Cristo, o cristianismo seria um código moral entre outros. Com Ele, é relação. "A fé cristã não é a crença de que certas proposições são verdadeiras. É o encontro com uma Pessoa que vive." A doutrina conta o que essa Pessoa disse e fez. Mas o ato de fé é dirigido à Pessoa, não à doutrina sobre ela.
Fé viva e fé morta
São Tiago distingue com dureza: "A fé sem obras é morta" (Tg 2, 26). A fé que não se traduz em vida concreta — decisões, hábitos, escolhas — é cadáver. O Padre Faus, em A Conquista das Virtudes, formula o teste:
"Muitos cristãos vivem com fé morta: creem em tese, mas nenhuma decisão concreta do dia é afetada por essa crença." — Padre Faus, A Conquista das Virtudes O teste da fé não é o que respondemos num catecismo. É o que fazemos na segunda-feira de manhã.
O Padre Faus, em A Tibieza e os Dons do Espírito Santo, alerta para um estágio ainda mais insidioso: a fé adormecida. O crente que se acostumou tanto com as verdades da fé que elas não o espantam mais. Quando a Eucaristia vira rotina. Quando o Credo é recitado no automático. Quando a Missa é apenas um horário a cumprir. A fé está viva no papel e morta na prática. É o "povo que me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim" (Mt 15, 8).
São Josemaría repetia: "Se aceitamos a nossa responsabilidade de filhos de Deus, devemos ter em conta que Ele nos quer muito humanos." A fé não retira o cristão do mundo; situa-o nele com olhos diferentes.
A noite escura da fé
São João da Cruz, embora seja patrono da esperança neste projeto, também ilumina a fé com uma experiência que poucos descreveram tão bem. Na Subida do Monte Carmelo, ensina que a fé é "noite escura" para o entendimento. Não porque seja irracional, mas porque a luz que ela traz é tão forte que cega os olhos habituados à penumbra.
A purificação passiva da fé — quando Deus parece ausente, quando a oração é aridez, quando as verdades que antes consolavam deixam de consolar — não é perda de fé. É crescimento. A fé que dependia de consolações sensíveis está a ser substituída por uma fé mais pura, que se apoia apenas em Deus, não nos sentimentos que Deus dá. Santa Teresa de Ávila descreve o mesmo processo nas Moradas: as primeiras moradas são cheias de luz e consolação; as moradas mais interiores são mais escuras, mais silenciosas — e mais próximas de Deus.
Santa Teresinha de Lisieux, nos últimos meses de vida, atravessou uma noite de fé tão densa que confessou: "Se soubésseis em que trevas estou mergulhada!" Ela, que escrevera páginas luminosas sobre a confiança em Deus, sentiu-se tentada contra a própria existência do Céu. Mas não cedeu. Repetia: "Creio." Não sentia. Cria. A virtude operava onde o sentimento falhava.
Os dons do Espírito Santo: Inteligência e Ciência
Dois dons do Espírito Santo aperfeiçoam a fé:
O dom da Inteligência penetra no sentido profundo das verdades reveladas. Não acrescenta verdades novas; faz compreender melhor as que já se conhecem. O Credo recitado mil vezes diz sempre as mesmas palavras. Mas sob o dom da Inteligência, uma palavra que sempre pareceu comum de repente ilumina: "ressurreição da carne" deixa de ser fórmula e torna-se espanto.
O dom da Ciência permite ver as criaturas como sinais de Deus. Não é ciência no sentido moderno (a física, a biologia); é a capacidade de ler o mundo como livro escrito por Deus. São Francisco de Assis tinha este dom em grau supremo: via o Criador no sol, na lua, na água, no fogo. "Louvado sejais, meu Senhor, pela irmã Lua e as estrelas."
Vícios opostos
A incredulidade — recusar a fé depois de tê-la conhecido. Não é a ignorância inocente de quem nunca ouviu o Evangelho; é a decisão deliberada de rejeitar o que se sabe ser verdade. Santo Tomás a classifica como pecado contra o Espírito Santo quando é obstinação consciente.
A heresia — escolher dentro da fé apenas o que agrada (hairesis = escolha). O herege não rejeita tudo; seleciona. Aceita a misericórdia de Deus mas rejeita a sua justiça. Aceita a Ressurreição mas rejeita a cruz. Chesterton: o herege leva uma verdade ao extremo, esquecendo todas as outras.
A apostasia — abandonar a fé inteiramente. São Paulo a Timóteo: "Alguns, rejeitando a boa consciência, naufragaram na fé" (1Tm 1, 19).
A acédia em relação à fé — talvez o vício mais comum no mundo contemporâneo. Não é rejeição; é indiferença. O acedioso não nega Deus; não se interessa. Não blasfema; boceja. Fulton Sheen: "Há muito mais razões para crer do que para não crer. Mas as razões para não crer são mais confortáveis."
O escândalo como obstáculo à fé
Um obstáculo à fé que merece menção própria é o escândalo — não no sentido jornalístico, mas no sentido evangélico: a pedra de tropeço. Jesus disse: "Ai daquele por quem vierem os escândalos" (Mt 18, 7). Quando cristãos vivem de modo contrário ao que professam — hipócritas na moral, cruéis no trato, avarentos na caridade — tornam-se obstáculo à fé dos outros. Quantos perderam a fé não porque examinaram as provas e as acharam insuficientes, mas porque viram cristãos a viver como se Cristo não existisse?
São Josemaría enfrentava esse argumento de frente: "Se aceitamos a nossa responsabilidade de filhos de Deus, devemos ter em conta que Ele nos quer muito humanos." A fé não se prova por argumentos apenas. Prova-se pela vida de quem crê.

Sandro Botticelli (1480) · Domínio público
Santo Agostinho (354–430)
Nasceu em Tagaste, na Numídia (atual Argélia). Mãe cristã (Santa Mónica), pai pagão. Inteligência excepcional desde jovem. Estudou retórica em Cartago. Viveu com uma concubina durante treze anos, com quem teve um filho (Adeodato). Buscou a verdade nos maniqueus, nos astrólogos, nos neoplatônicos. Nenhuma escola o saciou.
A conversão em Milão, em 386, é o momento mais narrado da história da fé cristã. O jardim. A voz da criança. Tolle, lege. As cartas de Paulo. As trevas que se dissipam. É preciso notar: Agostinho não se converteu por ignorância. Converteu-se por excesso de busca. Tinha lido tudo. Tinha pensado tudo. E concluiu que o pensamento humano, sozinho, não responde à pergunta mais fundamental.
Fez-se padre, depois bispo de Hipona. Escreveu mais do que qualquer outro Padre da Igreja: as Confissões (a primeira autobiografia espiritual da história), A Cidade de Deus, os tratados contra os hereges, os comentários aos Salmos, os sermões. Combateu os maniqueus, os donatistas, os pelagianos. Morreu em 430, enquanto os vândalos sitiavam Hipona.
A frase de abertura das Confissões contém toda a sua teologia numa respiração: Fecisti nos ad Te, Domine, et inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te — "Fizeste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós."
Agostinho é patrono da fé neste projeto não porque tenha crido facilmente, mas porque creu depois de ter lutado contra a fé com todas as armas da inteligência. A sua fé não é a do ingénuo; é a do combatente que depôs as armas não por cansaço, mas por ter encontrado o que procurava.
Fulton Sheen e a fé na cruz
Sheen correlaciona a fé com a quarta palavra de Cristo: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mt 27, 46). É o Salmo 22, que começa no abandono e termina na esperança. Cristo, na cruz, experimenta o que todo crente às vezes experimenta: o silêncio de Deus. Mas não perde a fé. Diz "Meu Deus" — não "Deus, se existires." A fé opera no escuro. Chama a Deus de "meu" mesmo quando Deus parece ausente.
Como crescer na fé
Estudar o que se crê. A fé adulta não pode viver da catequese da infância. Santo Agostinho: Intellige ut credas — entende para que creias. Ler a Escritura. Estudar o Catecismo. Aprofundar a doutrina. A fé ignorante é frágil.
Ver biblioteca de leituras recomendadas →
Rezar quando não se sente nada. É aí que a fé se fortalece. A oração na aridez é mais meritória do que a oração na consolação, porque depende menos do sentimento e mais da vontade. Santa Teresa de Ávila: "Não abandoneis a oração por dificuldade."
Viver como se cresse de fato. O Padre Faus: o teste da fé é a segunda-feira de manhã. A fé que não afeta decisões concretas é fé morta. Perguntar-se: as minhas escolhas seriam diferentes se eu não cresse?
Profissionar a fé. O Catecismo (n. 1816): "O discípulo de Cristo não deve só guardar a fé e nela viver, mas também professá-la, testemunhá-la com firmeza e difundi-la." A fé não é assunto privado. É testemunho.
Aceitar a noite escura. São João da Cruz e Santa Teresinha ensinam que os períodos de escuridão não são perda de fé. São purificação. A fé que dependia de consolações está a ser substituída por fé mais pura.
Alimentar-se dos sacramentos. A fé se nutre na Eucaristia, na Confissão, na vida litúrgica. Sem sacramentos, a fé seca como planta sem água.
Vivi hoje como se Deus existisse de fato? As minhas decisões foram diferentes por causa da fé, ou teriam sido as mesmas se eu não cresse?
Busquei conhecer mais profundamente o que creio, ou estou satisfeito com a fé da infância, sem nunca tê-la aprofundado?
Quando a fé foi desafiada — pela dor, pela dúvida, pelo escândalo dos outros cristãos — resisti com confiança ou recuei para o cinismo?
Recito o Credo com atenção e convicção, ou repito palavras no automático?
A minha vida é testemunho de fé para os que me rodeiam, ou sou pedra de tropeço — cristão que vive como se Cristo não existisse?
Quando a aridez chegou à oração, perseverei ou desisti?
Creio, Senhor, mas aumentai a minha fé. Que eu não creia apenas com os lábios, mas com a vida inteira.
Nos dias de luz, que a fé me faça grato. Nos dias de escuridão, que a fé me mantenha de pé. Quando a razão alcançar o seu limite, que eu diga com Newman: "Senhor, guia-me Tu." Quando o sentimento falhar, que eu diga com Teresinha: "Creio."
Como Agostinho, que buscou até encontrar. Como os mártires, que creram até morrer. Como Maria, que creu sem ver.
Fizeste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em Vós.
Amém.