
Esperança
A esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. — Rm 5, 5
Charles Péguy escreveu que a fé e a caridade são como duas irmãs mais velhas que caminham na estrada e toda a gente as vê e as admira. Mas entre elas caminha uma menina pequena, que quase ninguém nota. É a esperança. E — diz Péguy — é ela que puxa as outras adiante.
"A fé que eu mais amo, diz Deus, é a esperança."
A frase é de Deus falando na voz de Péguy, no Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, e soa quase como heresia. Como pode Deus preferir a esperança à fé ou à caridade? Porque a fé vê o que é evidente para quem tem olhos; a caridade ama o que é infinitamente amável; mas a esperança confia quando não há evidência e ama quando não há retorno. A esperança é a virtude do escuro. É acreditar que a semente vai germinar quando a terra ainda está gelada.
Bento XVI abriu a encíclica Spe Salvi com São Paulo: "Na esperança é que fomos salvos" (Rm 8, 24). Não na posse, não na evidência, não na certeza visível. Na esperança. O cristão não tem ainda o que espera. Se tivesse, não seria esperança: "Esperança que se vê não é esperança. Quem espera o que já vê?" (Rm 8, 24). A esperança é a virtude do caminho, não da chegada.
O que não é
A esperança não é otimismo. O otimismo é uma disposição temperamental: a tendência a ver o lado bom das coisas. Pode ser simpático, mas não é virtude. O otimista acredita que "tudo vai dar certo" porque é o seu jeito. O esperançoso confia em Deus mesmo quando tudo parece dar errado. O otimismo depende das circunstâncias; a esperança opera contra elas. Pieper observa que a esperança cristã não é "a expectativa confiante de que o futuro trará coisas boas", mas a certeza de que Deus cumpre as suas promessas, independentemente do que o futuro visível traga.
A esperança não é passividade. Não é cruzar os braços e esperar que Deus resolva tudo. São Josemaría:
"A esperança nos leva a pedir a Deus grandes coisas, e a empenhar-nos com todas as forças em realizá-las. Não é a virtude dos que cruzam os braços." — São Josemaría Escrivá Santo Agostinho dizia: "Quem te criou sem ti não te salvará sem ti." A graça não é mágica. A esperança é esperar de Deus o que Deus prometeu, fazendo a nossa parte do caminho.
A esperança também não é presunção. A presunção é o vício que imita a esperança pelo lado do excesso: esperar a salvação sem conversão, sem esforço, sem arrependimento. "Deus é bom, no final tudo se resolve." É a voz do preguiçoso espiritual que confunde a misericórdia de Deus com indulgência automática. O Padre Faus nota que a presunção raramente se apresenta com esse nome. Aparece como "confiança madura", como "não se preocupar demais com pecados", como "Deus entende." Mas por trás dessa calma há uma recusa de se converter.
A esperança não é expectativa de conforto terreno. O objeto da esperança teologal não é a saúde, o emprego, o sucesso, a família perfeita. Esses bens podem ser pedidos a Deus, e devem sê-lo. Mas o objeto próprio da esperança é Deus mesmo, possuído na vida eterna. Bento XVI em Spe Salvi:
"Não são as coisas grandes que esperamos — uma casa maior, um emprego melhor — que podem dar ao homem a esperança verdadeira. É a grande esperança — Deus — que pode sustentar as pequenas esperanças quotidianas." — Bento XVI, Spe Salvi
O que é
O Catecismo define: "A esperança é a virtude teologal pela qual desejamos como nossa felicidade o Reino dos Céus e a Vida Eterna, pondo a nossa confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo" (n. 1817).
Santo Tomás define com uma fórmula densa: Spes est virtus theologica qua homo in Deum tendit sicut in bonum futurum arduum sed possibile — a esperança é a virtude teologal pela qual o homem tende para Deus como bem futuro, árduo, mas possível.
Cada termo importa. Bem futuro: a esperança olha para a frente. Não é nostalgia de um paraíso perdido; é caminhada para um paraíso prometido. Árduo: o bem esperado é difícil de alcançar. Se fosse fácil, não precisaria de esperança, bastaria boa vontade. A vida eterna exige luta, conversão, perseverança. Possível: mas não impossível. O que torna possível o que seria impossível pelas nossas forças é a graça. "Para Deus, nada é impossível" (Lc 1, 37).
A esperança ocupa uma posição intermediária entre a fé e a caridade. A fé conhece o fim (Deus). A esperança deseja e caminha para esse fim. A caridade une a esse fim. Sem fé, a esperança não sabe para onde vai. Sem esperança, a caridade perde o impulso. Sem caridade, a esperança permanece desejo sem amor.
Gabriel Marcel, o filósofo católico francês, distinguia entre esperança e expectativa. A expectativa é calculável: espero o ônibus porque sei o horário. A esperança é mistério: espero o que excede toda previsão. "A esperança é a disponibilidade de uma alma tão íntima que está para além de toda tomada de consciência." Não se calcula; confia-se.
A esperança entre duas irmãs
Péguy desenvolveu a imagem que abre esta capela com uma profundidade que nenhum teólogo sistemático atingiu. No Pórtico do Mistério da Segunda Virtude, Deus fala:
"A fé é uma esposa fiel. A caridade é uma mãe ardente. Mas a esperança é uma criança pequenininha. E é essa criança pequenininha que carrega tudo. Porque a fé não vê senão o que é. E a caridade não ama senão o que é. Mas a esperança ama o que será." — Charles Péguy, Pórtico do Mistério da Segunda Virtude
A esperança é a virtude do futuro. A fé olha para o que Deus revelou (passado e presente). A caridade ama o que existe agora. A esperança se lança para a frente, para o que ainda não é, mas será. É a virtude mais frágil na aparência e a mais necessária na prática. Sem ela, a fé se torna conhecimento inerte e a caridade se esgota no cansaço.
Bento XVI desenvolve isso em Spe Salvi com uma observação que toca a vida real: "Quem tem esperança vive de modo diferente. Foi-lhe dada uma vida nova." A esperança muda o presente, não apenas o futuro. Quem espera a vida eterna não fica paralisado à espera; vive o presente com uma intensidade que o desesperado não conhece. "É a grande esperança que pode sustentar as pequenas esperanças quotidianas."
A noite como lugar da esperança
Se a fé tem a sua noite escura, a esperança tem a sua também — e mais radical. A fé na noite ainda diz "creio." A esperança na noite diz "espero" quando todo sinal visível aponta para o fracasso.
São João da Cruz viveu isso literalmente. Preso pelos próprios confrades carmelitas num cárcere em Toledo, durante nove meses, no escuro, maltratado, mal alimentado. Tudo o que podia ser tirado lhe foi tirado: a liberdade, a saúde, a consolação sensível de Deus, o apoio dos irmãos. Sobrou a nudez da fé e a âncora da esperança.
E foi ali que escreveu os versos mais luminosos da língua castelhana. Na Noite Escura:
"Nesta noite ditosa, em segredo, que ninguém me via nem eu nada via, sem outra luz nem guia senão a que no coração ardia." — São João da Cruz, Noite Escura A luz interior, quando todas as luzes exteriores se apagaram. A esperança que opera quando não há mais nada em que se apoiar senão Deus.
Esperar quando tudo vai bem não é virtude; é bom humor. Esperar quando tudo desmorona é a esperança teologal em ato.
A esperança e o sofrimento
Bento XVI dedica uma seção inteira de Spe Salvi à relação entre esperança e sofrimento. Não são opostos. A esperança cristã não elimina o sofrimento; atravessa-o.
"Não é a fuga do sofrimento que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, encontrando sentido através da união a Cristo, que sofreu com amor infinito." — Bento XVI, Spe Salvi
A cruz não é acidente de percurso. É o caminho. A esperança cristã não é esperança "apesar da" cruz, como se a cruz fosse um obstáculo. É esperança "através da" cruz, porque o cristão sabe que a Ressurreição veio depois da Sexta-Feira Santa, não no lugar dela.
São Paulo escreve aos Tessalonicenses a frase mais simples e mais cortante sobre a esperança: "Não vos entristeçais como os que não têm esperança" (1Ts 4, 13). Não diz "não vos entristeçais." Diz "não vos entristeçais como os que não têm esperança." O cristão se entristece — é humano. Mas a tristeza do cristão é diferente: tem fundo. Tem chão. Tem amanhã.
O dom do Espírito Santo
O dom que corresponde à esperança é, paradoxalmente, o Temor de Deus — não no aspecto de medo, mas no aspecto de confiança filial. O Temor de Deus, na sua dimensão positiva, é a reverência de quem confia tanto no Pai que teme apenas uma coisa: ofendê-Lo. É a esperança purificada: não espero por medo do inferno, mas por amor ao Céu; não fujo do castigo, mas desejo a presença.
O desespero
O desespero é o vício oposto à esperança por falta. Santo Tomás o classifica como pecado gravíssimo, porque fecha a porta à conversão. Quem desespera de Deus já não pede perdão, já não luta, já não se levanta. O desespero é a recusa da graça.
Mas — e aqui o Padre Faus tem uma observação que vale ser gravada — o desespero raramente se apresenta com esse nome. Ninguém diz "estou desesperado da salvação." Vem disfarçado de "realismo." De "maturidade." De "aceitação de que o mundo é assim mesmo." O cínico que não espera nada de bom — nem de Deus nem dos homens — não se chama desesperado. Chama-se "desencantado" ou "lúcido." Mas é um desesperado com eufemismo.
Santo Agostinho nota que o desespero pode esconder-se sob a forma de uma vida confortável: a pessoa que não espera a vida eterna simplesmente se instala na vida presente. Não sofre visivelmente. Não se queixa. Apenas parou de caminhar. Sentou-se à beira da estrada e decidiu que ali é o destino. Mas ali não é o destino. É a estrada.
A presunção
O vício oposto por excesso. Duas formas, segundo o Catecismo (n. 2092):
A presunção que espera a salvação sem mérito — "Deus é bom, não preciso me esforçar." É a caricatura da misericórdia. Deus é misericordioso, sim. Mas a misericórdia não é licença para pecar. É perdão para quem se arrepende.
A presunção que confia nas próprias forças — "eu me salvo sozinho, não preciso de Deus." É o orgulho espiritual: achar que a salvação é conquista humana, não dom divino.
Santo Agostinho equilibra com uma fórmula que deve ser meditada devagar: "Quem te criou sem ti não te salvará sem ti." Deus faz o que só Deus pode fazer (a graça). Mas espera que o homem faça o que o homem pode e deve fazer (a correspondência).
A tentação contra a esperança
Santa Teresinha de Lisieux, nos seus últimos dezoito meses de vida, enfrentou não apenas a noite da fé, mas a tentação direta contra a esperança. Registou nos manuscritos: "É um muro que se ergue até ao céu." O Céu em que sempre acreditara tornou-se opaco, inatingível, duvidoso. Ela, que escrevera páginas sobre a confiança filial, ouviu dentro de si a voz que dizia:
"Sonhas com a luz, com uma pátria de suavíssimos perfumes. Sonhas com a posse eterna do Criador. Crês que um dia sairás desta bruma? Avança, avança! Alegra-te com a morte, que te dará não o que esperas, mas uma noite mais profunda, a noite do nada." — Santa Teresinha de Lisieux, Manuscritos Autobiográficos
Teresinha não cedeu. Respondeu com atos, não com sentimentos. Renovou a profissão de fé. Ofereceu o sofrimento. E disse: "Mesmo que não tivesse fé, teria agido da mesma forma." A esperança operava onde o sentimento de esperança tinha morrido.

Pintura devocional (séc. XIX) · Domínio público
São João da Cruz (1542–1591)
Juan de Yepes y Álvarez. Nasceu na pobreza, em Fontiveros, Castela. Entrou no Carmelo. Conheceu Teresa de Ávila e juntou-se à reforma carmelitana. A reforma encontrou resistência feroz: os carmelitas não-reformados o sequestraram em dezembro de 1577 e prenderam-no num cárcere do convento de Toledo.
O cárcere era uma cela minúscula, sem luz natural. Recebia sobras de comida. Era levado ao refeitório da comunidade para ser disciplinado publicamente. Ficou ali nove meses.
A tentação óbvia seria o desespero: Deus abandonou-me. Os meus irmãos traíram-me. A reforma falhou. Nada valeu a pena.
São João da Cruz respondeu com poesia. Compôs no escuro — de memória, sem papel — algumas das maiores páginas da literatura mística universal. O Cântico Espiritual: "Para onde te escondeste, Amado, e me deixaste com gemido?" A Noite Escura: "Saí sem ser notada, estando já minha casa sossegada." Cada verso é um ato de esperança pura: a alma que busca Deus no escuro, sem ver, sem sentir, sem apoio — e O encontra.
Em agosto de 1578, conseguiu fugir descendo pela janela com lençóis amarrados. Levava consigo apenas os versos compostos na prisão.
São João da Cruz é patrono da esperança porque viveu o caso extremo: a esperança despida de toda consolação. Sem liberdade, sem saúde, sem companhia, sem sinais visíveis de que Deus o ouvia, ele esperou. E o que brotou daquela esperança nua foi luz.
A âncora
A iconografia cristã representa a esperança com uma âncora. A imagem vem de São Paulo: "Temos a esperança como âncora segura e firme da alma" (Hb 6, 19). A âncora não impede a tempestade. Impede que o barco seja arrastado. O mar pode rugir, o vento pode soprar, as ondas podem cobrir o convés. Mas a âncora, que não se vê porque está debaixo da água, segura.
A esperança é assim: invisível, submersa, silenciosa. Mas é ela que impede o naufrágio.
Fulton Sheen e a esperança na cruz
Sheen correlaciona a esperança com a segunda palavra de Cristo na cruz: "Hoje estarás comigo no Paraíso" (Lc 23, 43). A frase é dita ao bom ladrão — um criminoso condenado que, no último momento, se volta para Cristo e pede: "Lembra-te de mim quando entrares no teu Reino" (Lc 23, 42). É o ato de esperança mais comprimido da Escritura. Tudo parece perdido: os dois estão pregados em cruzes, a morte é iminente, o Reino de que fala parece absurdo. Mas o ladrão espera. E Cristo responde com a promessa mais generosa do Evangelho: "Hoje."
Não "quando fores suficientemente bom." Não "depois de anos de penitência." Hoje. A esperança é recompensada no instante em que é exercida.
Como crescer na esperança
Não confundir esperança com otimismo. O otimismo depende das circunstâncias. A esperança depende de Deus. Nos dias bons, ser grato. Nos dias maus, esperar.
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Nomear o desespero disfarçado. O cinismo, o "desencanto", o "realismo" que não espera mais nada podem ser desespero com nome bonito. Perguntar-se: parei de caminhar? Sentei-me à beira da estrada e decidi que ali é o destino?
Rezar o Salmo 130. De profundis clamavi ad te, Domine — do fundo do abismo clamo a Vós, Senhor. O salmo não nega o abismo. Começa nele. E a partir dele grita para cima. É a oração da esperança por excelência.
Não confundir esperança com passividade. Esperar de Deus o que Deus prometeu, fazendo a nossa parte. São Josemaría: "Não é a virtude dos que cruzam os braços."
Lembrar a Ressurreição. A esperança cristã não é genérica. Tem um fundamento concreto: Cristo morreu e ressuscitou. Se a Ressurreição aconteceu, tudo o mais é consequência. São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé" (1Cor 15, 14). Mas ressuscitou. E é por isso que esperamos.
Aceitar a cruz como caminho. A esperança cristã não é esperança de uma vida sem cruz. É esperança de uma vida em que a cruz conduz à Ressurreição. Bento XVI: "Não é a fuga do sofrimento que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer."
Caí no desânimo, no cinismo, na resignação que se disfarça de maturidade? Parei de esperar?
Confiei mais nas minhas forças e nos meus planos do que na graça de Deus? Ou, no extremo oposto, esperei que Deus resolvesse tudo sem eu mover-me?
Vivo como peregrino a caminho, ou como quem já se instalou na estrada e não espera mais nada?
Perante as cruzes do dia, reagi com fé na Ressurreição, ou com amargura, "como os que não têm esperança" (1Ts 4, 13)?
A minha esperança é em Deus — na vida eterna, na sua promessa — ou apenas nos confortos da vida presente?
Quando alguém ao meu redor desanimou, fui instrumento de esperança ou amplificador do desânimo?
Senhor, quando a noite se fizer escura e nenhuma consolação chegar, que eu não solte a Vossa mão.
Concedei-me a esperança que não depende das circunstâncias, mas da Vossa promessa. Que eu não confunda a escuridão com a ausência, nem o silêncio com o abandono. Como João da Cruz no cárcere, que eu saiba cantar no escuro. Como o bom ladrão na cruz, que eu diga: "Lembra-te de mim." Como a pequena Teresinha na tempestade, que eu repita: "Espero."
A esperança não decepciona, porque o Vosso amor foi derramado em nossos corações. Nesse amor me firmo. Nessa esperança caminho. Para essa pátria avanço.
Amém.