
Caridade
Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade, seria como bronze que soa ou como címbalo que retine. — 1Cor 13, 1
Chegamos ao fim da peregrinação. Ou ao início: porque a caridade não é a última virtude no sentido de quem termina uma escada. É a primeira no sentido de quem dá sentido a todas as outras.
Santo Tomás chama-a de forma de todas as virtudes: a caridade não se soma às outras como mais um andar. Penetra-as por dentro e dá-lhes vida. Uma prudência sem caridade é cálculo frio. Uma justiça sem caridade é legalismo. Uma fortaleza sem caridade é brutalidade. Uma temperança sem caridade é rigidez. Uma fé sem caridade é informação estéril. Uma esperança sem caridade é egoísmo que quer o céu para si. A caridade é o sangue que corre em todas as veias.
São Paulo resume: "Agora permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três. Mas a maior delas é a caridade" (1Cor 13, 13). E São João, numa das frases mais curtas e mais densas da Escritura: "Deus é amor" (1Jo 4, 8). Não "Deus tem amor." Deus é amor. A caridade não é um atributo de Deus entre outros. É o nome próprio de Deus.
São Bernardo de Claraval, no De Diligendo Deo, foi perguntado: qual é a medida do amor a Deus? E respondeu: "A medida de amar a Deus é amá-lo sem medida." Não há teto. Não há excesso. Não há "justo meio." A caridade é a única virtude em que o máximo é sempre pouco.
O que não é
A caridade não é sentimento. O sentimento vai e vem. A caridade permanece. Pode-se amar sem sentir ternura, sem sentir consolação, sem sentir nada. Cristo na cruz não sentia ternura pelos seus carrascos quando disse: "Pai, perdoai-lhes" (Lc 23, 34). Sentia dor. A caridade operava acima da dor, como decisão da vontade, não como emoção.
A caridade não é filantropia. A filantropia ama a humanidade em abstrato. É fácil amar a humanidade; difícil é amar o vizinho. Dostoiévski, nos Irmãos Karamázov, põe na boca de um personagem a confissão mais honesta sobre este tema:
"Quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular. Nos meus sonhos, concebia planos apaixonados de servir a humanidade. Mas sou incapaz de viver dois dias no mesmo quarto com quem quer que seja." — Dostoiévski, Irmãos Karamázov A caridade cristã não é projeto social. É encontro concreto com a pessoa que está diante de mim.
A caridade não é tolerância universal. A cultura contemporânea confunde amor com aceitação incondicional de tudo. Mas o amor verdadeiro nem sempre aceita; por vezes corrige, confronta, diz "não." O pai que nunca diz "não" ao filho não o ama; abandona-o. Jesus, que é o amor encarnado, expulsou mercadores do Templo, chamou os fariseus de sepulcros caiados e disse a Pedro: "Afasta-te de mim, Satanás" (Mt 16, 23). O amor que nunca incomoda não é amor; é indiferença educada.
A caridade não é dar o que sobra. São Josemaría cortava fundo: "A caridade não é dar o que nos sobra; é dar o que nos custa." A viúva do Evangelho lançou duas moedinhas no cofre do Templo — tudo o que tinha para viver — e Jesus disse que deu mais do que todos os ricos, "porque todos deram do que lhes sobrava; ela, porém, da sua indigência, deu tudo o que tinha" (Mc 12, 44). A caridade se mede pelo custo, não pela quantidade.
O que é
O Catecismo define: "A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas por Ele mesmo, e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus" (n. 1822).
Santo Tomás define com uma expressão que surpreende: Caritas est amicitia quaedam hominis ad Deum — a caridade é uma certa amizade do homem com Deus. Não disse "obediência a Deus" nem "serviço a Deus." Disse amizade. A amizade exige reciprocidade: o amigo conhece o amigo, gosta do amigo, partilha a vida com o amigo. A caridade é isso entre o homem e Deus: Deus se revela ao homem (fé), o homem se entrega a Deus (caridade), e partilham uma vida (graça).
Jesus confirma: "Já não vos chamo servos, mas amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai vos dei a conhecer" (Jo 15, 15). A relação não é de escravo e senhor. É de amigos. Amigos desiguais — infinitamente desiguais — mas amigos. E a caridade é o que torna essa amizade possível do lado humano.
Bento XVI, na encíclica Deus Caritas Est, acrescenta uma dimensão que a tradição ascética por vezes esqueceu: a caridade integra eros e agape. O amor ascendente (que deseja, que busca, que se eleva ao amado) e o amor descendente (que se doa, que se esvazia, que desce ao amado). São dois movimentos do mesmo amor, não dois amores diferentes. O eros sem agape torna-se egoísmo possessivo. O agape sem eros torna-se dever frio. A caridade madura integra os dois: recebe com gratidão e doa com generosidade. Deseja Deus (eros) e se entrega a Deus (agape).
A forma de todas as virtudes
Santo Tomás explica o que significa dizer que a caridade é "a forma" das outras virtudes. Não significa que substitui as outras. Significa que lhes dá a finalidade última. Uma pessoa pode ser justa por medo da punição — isso é justiça sem caridade. Pode ser justa por amor a Deus e ao próximo — isso é justiça informada pela caridade. O ato exterior pode ser o mesmo; a raiz é diferente. E a raiz determina o valor.
São Paulo diz que sem caridade, todo o resto — profecia, conhecimento, fé que move montanhas, distribuição de todos os bens aos pobres, entrega do corpo ao fogo — é nada (1Cor 13, 1-3). Não "pouco." Nada. Uma vida inteira de virtudes aparentes, sem a raiz da caridade, é como uma árvore cheia de folhas e sem fruto.
A ordem da caridade
Santo Tomás trata de um tema que poucas pessoas consideram: existe uma ordem na caridade. Não se ama tudo e todos da mesma maneira. A ordem é:
Primeiro, Deus. Acima de tudo e de todos. "Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente" (Mt 22, 37). O "com todo" não admite exceção.
Segundo, nós mesmos. "Amarás o próximo como a ti mesmo" (Mt 22, 39). O "como a ti mesmo" pressupõe um amor próprio reto. Quem não se ama (no sentido cristão: quem não cuida da própria alma, da própria salvação) não pode amar o próximo. O ódio a si mesmo não é humildade; é desordem.
Terceiro, o próximo. E dentro do próximo, há gradações naturais: a família antes dos estranhos, os amigos antes dos desconhecidos, os que estão perto antes dos que estão longe. Não porque os distantes valham menos, mas porque a caridade é concreta: começa onde estou, com quem convivo.
Santa Teresinha entendia isso com a clareza dos simples. A sua caridade não se exercia em projetos grandiosos, mas no trato diário com as irmãs do Carmelo. Suportar a irmã que fazia barulho ao lavar louça. Sorrir à irmã antipática que ninguém queria como companheira. Ceder o melhor lugar no refeitório. "Na minha pequena via, tudo é amor." A grandeza não está no tamanho do gesto, mas no amor com que é feito.
Caridade e compreensão
O Padre Faus, em Tornar a Vida Amável, situa a caridade onde ela mais se prova: no modo de ver o outro.
Conta a cena de Lucas 7: a pecadora na casa de Simão. Dois olhares sobre a mesma mulher.
Simão vê a pecadora. Recua com desprezo. Pensa: "Se este homem fosse profeta, saberia quem é esta mulher."
Jesus vê o arrependimento. Vê as lágrimas, o perfume, os beijos nos pés. E diz: "Os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou."
A pergunta que fica: com que olhos olhamos? São Josemaría aconselhava: "Muitos focalizam as pessoas com as lentes deformadas dos seus próprios defeitos" (Sulco, n. 644). O mau humor, o rancor, a inveja, a decepção são lentes estragadas que deformam o próximo. A caridade limpa as lentes.
O Padre Faus observa: "Se víssemos as pessoas como Deus as vê, choraríamos de pena pelas nossas faltas de compreensão." Santa Teresinha dizia às suas noviças:
"Devemos sempre julgar os outros benignamente, porque o que parece aos nossos olhos negligência pode muitas vezes ser um ato de heroísmo aos olhos do Senhor." — Santa Teresinha de Lisieux
Caridade e correção
Mas compreender não é tolerar tudo. O Padre Faus insiste: "Um dos aspectos mais nobres da compreensão é saber corrigir." Jesus manda: "Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e corrige-o a sós" (Mt 18, 15). São Paulo: "Admoestai-o em espírito de mansidão" (Gl 6, 1). A correção feita com amor é caridade. O silêncio covarde diante do erro alheio é abandono.
Faus enumera os que não corrigem bem: o egoísta indiferente ("isso é lá com ele"), o sentimental mole que tudo tolera para não desagradar, o irado que confunde correção com bronca. Só o coração que ama corrige bem. "Só quem quer o bem do próximo deseja dar-lhe a mão que ajuda."
O livro dos Provérbios: "Melhor é a correção manifesta do que uma amizade fingida" (Pr 27, 5). São Josemaría: "Seria deslealdade calar-se, fingir, sorrir na cara e criticar pelas costas."
O dom do Espírito Santo: Sabedoria
O dom que aperfeiçoa a caridade é a Sabedoria — não o conhecimento intelectual, mas o sabor de Deus. A palavra latina sapientia vem de sapere, saborear. O sábio, no sentido do Espírito Santo, é o que saboreia Deus. Conhece-O não apenas com a mente, mas com o coração. Vê todas as coisas à luz de Deus e as ordena por amor a Deus.
É o dom mais elevado porque corresponde à virtude mais elevada. A caridade ama Deus; a sabedoria saboreia esse amor.
Vícios opostos
O ódio a Deus — o mais grave de todos os pecados. Raro na forma explícita, mas presente na forma implícita: a vida vivida como se Deus fosse inimigo, como se os seus mandamentos fossem obstáculos à felicidade.
O ódio ao próximo — Cristo coloca este vício na raiz do homicídio: "Todo o que odeia o seu irmão é homicida" (1Jo 3, 15). O ódio mata com o olhar que despreza, a palavra que destrói, o silêncio que abandona.
A acédia (acedia) — a tristeza diante do bem divino. O acedioso não odeia Deus; cansa-se Dele. A oração pesa, a missa aborrece, a vida espiritual parece monótona. Santo Tomás a classifica como pecado capital porque gera muitos outros: malícia, rancor, pusilanimidade, desespero, torpeza em relação aos mandamentos.
A inveja — a tristeza diante do bem do outro. Não é desejo de ter o mesmo (isso pode ser emulação legítima). É tristeza porque o outro tem. O invejoso não quer subir; quer que o outro desça. Santo Tomás: a inveja se opõe diretamente à caridade, que se alegra com o bem do próximo.
A discórdia e o cisma — a ruptura da unidade que a caridade constrói. A discórdia divide corações; o cisma divide a Igreja.
O amor que custa
A maior tentação contra a caridade não é o ódio. É a comodidade. Amar quando é fácil, quando agrada, quando retribui — isso qualquer um faz. Jesus: "Se amais os que vos amam, que mérito tendes? Também os pecadores amam os que os amam" (Lc 6, 32).
O teste da caridade é o custo. O que dou quando me custa tempo. O que perdoo quando me custa orgulho. O que suporto quando me custa paciência. O que faço quando ninguém vê e ninguém agradece.
Dostoiévski, pela voz do Stárets Zósima nos Irmãos Karamázov, deu a definição mais assustadora do inferno: "O inferno é o sofrimento de não poder mais amar." Não fogo, não trevas, não demónios. A incapacidade de amar. A alma fechada em si mesma para sempre. Se a caridade é a vida de Deus em nós, a ausência de caridade é a morte eterna — não como castigo imposto de fora, mas como consequência interior de quem se recusou a amar.

El Greco (séc. XVI) · Domínio público
São Francisco de Assis (1182–1226)
Giovanni di Pietro di Bernardone. Filho de um comerciante rico de Assis. Jovem mundano, festeiro, ambicioso. Sonhava com a glória militar. Foi para a guerra contra Perugia e voltou prisioneiro, doente, mudado.
O momento da conversão não foi uma iluminação repentina. Foi um encontro físico. Cavalgando nos arredores de Assis, encontrou um leproso. Francisco, que tinha horror a leprosos, desmontou do cavalo, aproximou-se e abraçou-o. Depois escreveu: "O que antes me parecia amargo se converteu em doçura da alma e do corpo." Não foi um gesto poético. Foi uma decisão que lhe causava repugnância física. A caridade operou contra o instinto.
Depois veio o despojamento. Diante do bispo de Assis e do pai furioso que o acusava de esbanjar os bens da família, Francisco tirou a roupa — toda a roupa — e devolveu ao pai: "Até agora te chamei pai na terra. Doravante direi: Pai Nosso que estais no Céu." Não estava protestando. Estava se libertando. Enquanto tinha algo a proteger, tinha algo a perder, e isso limitava a liberdade de amar. A pobreza de Francisco não era programa social; era condição para amar sem reservas.
Os estigmas vieram depois: as chagas de Cristo impressas no corpo de Francisco. Os últimos anos, quase cego, compôs o Cântico das Criaturas: "Louvado sejais, meu Senhor, com todas as vossas criaturas, especialmente o senhor Irmão Sol." A caridade que começou com o abraço ao leproso se estendeu a toda a criação.
Francisco não é patrono da caridade porque foi simpático. É patrono porque amou até onde dói. Até a pobreza total. Até as chagas. Até a cegueira. Até o fim.
São Bernardo e os quatro graus do amor
São Bernardo, no De Diligendo Deo, traça o itinerário do amor em quatro graus:
Primeiro grau: o homem ama-se a si mesmo por si mesmo. É o ponto de partida. Não é pecado; é natureza. Mas se ficar aqui, é egoísmo.
Segundo grau: o homem ama a Deus por si mesmo — porque Deus lhe faz bem, porque precisa d'Ele, porque quer o que Deus dá. Ainda é amor interessado, mas já se volta para Deus.
Terceiro grau: o homem ama a Deus por Deus — não pelo que Deus lhe dá, mas pelo que Deus é. O amor se purifica. Já não busca recompensa; busca o Amado.
Quarto grau: o homem ama-se a si mesmo por Deus — vê-se como criatura amada por Deus e ama-se pelo amor que Deus lhe tem. É a perfeição da caridade. São Bernardo reconhece que "não sei se é possível atingi-lo plenamente nesta vida." Mas é o horizonte.
Fulton Sheen e a caridade consumada
Sheen correlaciona a caridade com a última palavra de Cristo na cruz: "Está consumado" (Jo 19, 30). Consummatum est. A caridade de Cristo se consuma — se completa, se esgota, se entrega — na cruz. Não sobrou nada. Deu tudo. Sangue, água, espírito. A caridade não se mede pelo que se sente, mas pelo que se dá. E Cristo deu tudo.
Como crescer na caridade
Amar em atos, não em palavras. São João: "Filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas com obras e em verdade" (1Jo 3, 18). A caridade sem atos é discurso. Perguntar-se todo dia: que ato concreto de amor pratiquei hoje?
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Começar por quem está perto. A ordem da caridade de Santo Tomás não é sugestão; é estrutura. O cônjuge, os filhos, os pais, os colegas. A caridade que sonha com projetos grandiosos mas não suporta o vizinho é fantasia. Dostoiévski: "Quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular."
Limpar as lentes. Os defeitos próprios deformam a visão do outro. São Josemaría: "Muitos focalizam as pessoas com as lentes deformadas dos seus próprios defeitos." Antes de julgar alguém, perguntar: que defeito meu está a distorcer o meu olhar?
Perdoar. Não como sentimento, mas como decisão. O perdão pode custar anos. Mas começa no instante em que se decide não retribuir o mal com mal. Cristo perdoou na cruz — sem esperar arrependimento, sem esperar pedido, sem esperar nada.
Corrigir com amor. Não calar por comodismo. Não explodir por irritação. Falar a verdade com mansidão, a sós, com o objetivo de ajudar. "Se o teu irmão pecar, vai ter com ele e corrige-o a sós" (Mt 18, 15).
Dar o que custa. Não o que sobra. Tempo, atenção, dinheiro, conforto, orgulho. A viúva pobre deu duas moedinhas e deu mais do que todos os ricos.
Alimentar-se na Eucaristia. A caridade é participação no amor de Deus. A Eucaristia é a fonte desse amor. Sem ela, a caridade seca.
Amei hoje a Deus com atos concretos — oração, sacrifício, obediência — ou apenas com boas intenções e palavras?
Tratei alguma pessoa como meio para um fim meu — para obter algo, para parecer bem, para evitar um incômodo — em vez de amá-la como fim em si mesma?
Perdoei quem me ofendeu, ou carrego rancores que me pesam e que nunca levo à confissão?
Pratiquei caridade que me custou algo real — tempo, dinheiro, conforto, orgulho — ou apenas dei o que sobrava?
Olhei para alguém hoje com os olhos de Simão — desprezando, julgando — em vez de olhar com os olhos de Cristo?
Corrigi quem precisava ser corrigido, ou calei por covardia? E quando corrigi, fi-lo com mansidão ou com ira?
A minha caridade começa em casa — com o cônjuge, os filhos, os pais — ou reservo a gentileza para os de fora e a impaciência para os de dentro?
Senhor, fazei do meu coração uma fornalha de caridade. Que eu ame não com palavras, mas com obras e em verdade.
Que eu saiba dar o que custa, perdoar sem cobrar, servir sem esperar retorno. Que eu comece por quem está perto — o cônjuge, o filho, o colega, o vizinho — antes de sonhar com a humanidade distante.
Limpai as lentes dos meus olhos para que eu veja o próximo como Vós o vedes: não com os olhos de Simão, mas com os Vossos.
Como Francisco, que abracei o que me repugna. Como Bernardo, que eu ame sem medida. Como a viúva pobre, que eu dê tudo. Como Vós na cruz, que eu diga: está consumado.
Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.
Amém.