Ira e Ressentimento
O fogo que queima por dentro
Conhece o inimigo
A ira é a explosão. O ressentimento é a mesma ira, mas por dentro: lenta, silenciosa, corrosiva. São duas faces do mesmo defeito: a incapacidade de aceitar as contrariedades sem que a alma se inflame ou se congele.
Santo Tomás distingue: a ira em si não é pecado. Existe ira justa. Jesus expulsou os vendilhões do Templo com chicote. São Paulo manda: "Irai-vos, mas não pequeis." A ira torna-se vício quando é desproporcional, quando é sustentada por ressentimento, quando busca vingança em vez de justiça.
Santo Agostinho, na Regra, dá uma instrução que revela o perigo: "Que os vossos conflitos terminem o mais depressa possível, para que a ira não se transforme em ódio, fazendo de uma palha uma trave, e tornando a alma homicida." A passagem da ira ao ressentimento é a passagem do fogo à brasa: o fogo chama atenção e pode ser apagado; a brasa queima por dentro sem que ninguém veja.
A raiz: a ferida não tratada. A ira quase sempre nasce de uma dor. Em vez de processar a dor (o que exige vulnerabilidade), a pessoa converte-a em raiva (o que dá sensação de força). Garrigou-Lagrange: "Por baixo de toda ira habitual há uma ferida que nunca foi levada a Deus."
O primeiro ramo: a interpretação hostil. A pessoa irada lê tudo como ataque. Um comentário neutro vira provocação. Um esquecimento vira desprezo. O filtro da ira distorce a percepção: antes de ver o que aconteceu, a pessoa já decidiu que foi ofendida.
O segundo ramo: a ruminação. A pessoa repassa mentalmente a ofensa. Revive a cena. Imagina o que deveria ter dito. Cada vez que repassa, a ferida se aprofunda em vez de cicatrizar. São João Crisóstomo: "Se guardas rancor, a pessoa que te ofendeu faz-te mal uma vez. Tu, ao recordar, fazes-te mal cem vezes."
O terceiro ramo: o inventário de ofensas. A pessoa mantém um registro mental de tudo o que lhe fizeram. Cada nome tem uma lista. Cada lista cresce. Nenhuma se apaga. Santo Agostinho: "Se perdoas ao que te ofende, destróis a arma que ele usou contra ti. Se guardas rancor, a arma continua cravada em ti, não nele."
O fruto final: o endurecimento do coração. A ira sustentada produz uma casca. A pessoa torna-se cínica, desconfiada, incapaz de ternura. "Já não me magoa mais." Mas não é porque cicatrizou; é porque morreu por dentro.
Conhece-te a ti
Impaciência com as próprias imperfeições. A pessoa irrita-se consigo mesma por não ser perfeita. São João da Cruz: "Gostariam de ser santos num dia." E como não conseguem, ficam zangados consigo, com Deus, com o processo. Não é humildade; é orgulho ferido.
Irritação com os outros na oração. Irritar-se porque alguém tosse na igreja. Porque as crianças fazem barulho. Porque a homilia é longa. A ira transforma a liturgia em tribunal.
Incapacidade de perdoar dentro da oração. Rezar o Pai Nosso e travar em "perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido." Jesus é explícito: "Se fores apresentar a tua oferta no altar e te lembrares de que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te."
A oração como queixa. Transformar a oração em lista de reclamações contra Deus, contra os outros, contra as circunstâncias. Os lamentos dos Salmos terminam em confiança. A queixa irada termina em amargura.
As armas do combate
Não é passividade. Santo Tomás: a capacidade de suportar os males presentes sem perturbação da alma. O Padre Faus acrescenta: 'A paciência não é insensibilidade. É fortaleza temperada.' Sentir a dor sem que a dor governe a reação.
A capacidade de moderar a ira — não de suprimi-la (isso é repressão), mas de a ordenar. Jesus não disse 'bem-aventurados os que não sentem raiva'; disse 'bem-aventurados os mansos.' São Francisco de Sales: 'Nada é tão forte como a mansidão, e nada é tão manso como a verdadeira força.'
O discernimento para distinguir ira justa de ira egoísta. Para saber quando falar e quando calar. Para escolher o momento, o tom e as palavras. A mesma verdade, dita no momento errado, do modo errado, à pessoa errada, causa mais dano do que o silêncio.
Para o iracundo, significa não confiar na própria interpretação dos factos no momento da ira. Quando estás zangado, a tua leitura da situação é distorcida. Scupoli: 'Nunca tomes decisões nem fales palavras definitivas no calor da ira. Espera. Se a razão da ira for justa, continuará justa amanhã. Se não for, amanhã verás que não era.'
Entregar a justiça a Deus. 'A mim pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor' (Rm 12,19). Não porque a justiça não importa, mas porque a justiça feita por mãos iradas é sempre torta. Confiar que Deus vê, Deus sabe, e Deus corrige.
Usar a inteligência para examinar: 'Estou a reagir ao que aconteceu ou ao que imagino que aconteceu?' Usar a vontade para parar antes de falar. A 'regra do silêncio' de São Josemaría: quando sentes raiva, cala. Conta até dez. Se ainda queres falar, conta até cem.
Quando a ira subir, calar. Não responder imediatamente. Sair do espaço se necessário. Voltar quando a temperatura baixar. Não é fuga; é prudência.
Não em abstrato. Escolher alguém que te magoou e fazer um ato interior de perdão. Pode ser em oração: 'Senhor, perdoo fulano. Não porque mereça, mas porque Vós me perdoastes primeiro.'
Fazer uma lista honesta: de quem guardo rancor? Por quê? Há quanto tempo? Muitos ressentimentos, quando escritos, revelam-se desproporcionais. Outros revelam feridas reais que precisam de cura, não de ruminação.
Jesus: 'Amai os vossos inimigos e rezai pelos que vos perseguem.' A oração pelo inimigo não muda o inimigo; muda o coração de quem reza. 'Senhor, abençoai fulano' — a dificuldade em dizê-lo com sinceridade é a medida do rancor.
Quando alguém fizer algo que te incomoda, antes de reagir, perguntar: 'Qual é a explicação mais caridosa para o que ele fez?' São Francisco de Sales: 'A caridade não suspeita o mal.'
Escolher uma pessoa a quem tenhas tratado com dureza recentemente. Ir até ela e dizer: 'Peço desculpa por como falei contigo naquele dia.' Sem justificações. O ato de pedir perdão desmancha a armadura.
Uma vez por dia, engolir um comentário ácido que estava na ponta da língua. São Tiago: 'Se alguém não tropeça na palavra, esse é um homem perfeito.' A língua é a última fronteira do domínio de si.
O campo de batalha
'Senhor, dai-me a paciência que me falta. Quando hoje alguém me contrariar, que eu veja nessa pessoa um filho Vosso, não um obstáculo ao meu conforto.' Propósito específico: 'Hoje, quando X me irritar, vou respirar e responder com voz baixa.'
Quantas vezes me irritei? Com quem? A reação foi proporcional? Houve ruminação? Quanto tempo passei a repassar a ofensa?
Rever o dia. Houve perdão? Houve explosão? Houve frieza punitiva? Perguntar: 'Há alguém de quem ainda guardo rancor agora?' Se sim, fazer um ato de perdão antes de dormir. 'Não se ponha o sol sobre a vossa ira.'
Chamar à ira 'personalidade forte' ou 'franqueza'. 'Eu sou assim, falo o que penso.' Não é franqueza; é falta de domínio.
Toda ira parece justa no momento. O teste é: após a tempestade, a ira parece tão justa quanto parecia? Se não, não era justa; era ego ferido.
Perdoar 90% mas guardar os 10% mais dolorosos 'para não ser ingênuo'. O perdão que retém uma reserva não é perdão completo.
Dizer coisas duras em tom calmo e achar que não é ira. 'Eu não gritei.' Não, mas o conteúdo era uma faca. A ira fria pode ser mais destrutiva que a ira quente.
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